Psicose de IA preocupa especialistas e reforça riscos à saúde mental

Fenômeno associado ao uso intensivo de chatbots reforça percepções distorcidas e aumenta a necessidade de acompanhamento humano qualificado
Michelangelo Buonarroti
Michelangelo Buonarroti

O uso crescente de sistemas de inteligência artificial generativa está associado ao surgimento de um fenômeno chamado “psicose de IA”, termo não clínico que descreve casos em que pessoas emocionalmente fragilizadas passam a acreditar em percepções distorcidas como reais. O alerta foi feito por Mustafa Suleyman, chefe de inteligência artificial da Microsoft.

De acordo com o psiquiatra Keith Sakata, da Universidade da Califórnia em São Francisco, 12 pacientes apresentaram sintomas semelhantes à psicose após uso prolongado de chatbots. O especialista observou que a maioria dos casos envolvia jovens adultos com vulnerabilidades psicológicas, que desenvolveram delírios, alucinações e pensamento desorganizado.

Pesquisadores apontam que, diferente das redes sociais, que funcionam como câmaras de eco, os sistemas de IA oferecem explicações plausíveis que validam crenças já existentes. No Reino Unido, uma pesquisa da YouGov indicou que 31% dos jovens de 18 a 24 anos preferem conversar sobre saúde mental com IA em vez de buscar ajuda profissional, o que aumenta preocupações sobre dependência tecnológica em temas sensíveis.

Para Renato Asse, fundador da Comunidade Sem Codar e especialista em aplicações de inteligência artificial, o problema ocorre porque as ferramentas reforçam percepções dos usuários sem apresentar contrapontos. “Usuários em sofrimento podem encontrar na IA não um freio, mas um acelerador de suas percepções distorcidas, porque o sistema transforma suposições em justificativas plausíveis e reforça padrões de pensamento já existentes”, disse.

Segundo Renato, a responsabilidade no design desses sistemas deve incluir mecanismos que incentivem perspectivas diferentes. “Não precisamos ter medo de criar uma IA que discorde e desafie o usuário, desde que ela seja projetada para estimular reflexão, oferecer perspectivas diversas e apoiar o pensamento crítico sem substituir acompanhamento humano”, afirmou.

O avanço da IA no Brasil segue acelerado, mas especialistas destacam que o uso responsável deve priorizar a saúde mental. Para eles, a tecnologia pode atuar como apoio, mas nunca substituir a interação humana em contextos de cuidado psicológico.

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