Startups camelo mostram que o futuro está na resiliência, e não no bilhão imediato

Moaz Tobok
Moaz Tobok

No ecossistema de inovação, poucas expressões ganharam tanta popularidade quanto “unicórnio”, termo usado para definir startups que atingem valor de mercado superior a US$ 1 bilhão. Mas, nos últimos anos, outra metáfora vem conquistando espaço e oferecendo uma visão alternativa para o futuro dos negócios: as chamadas startups camelo

O conceito foi apresentado em 2020 pelo investidor e professor norte-americano Alex Lazarow, em artigo publicado na Harvard Business Review. Para ele, os empreendedores deveriam se inspirar nos camelos, animais reais, resistentes e capazes de sobreviver em condições extremas. Diferentemente do unicórnio, um ser mitológico. Na prática, ser uma startup camelo significa priorizar sustentabilidade financeira, lucratividade e consistência de longo prazo em vez de buscar apenas crescimento acelerado para satisfazer investidores.

De acordo com a pesquisa Founders Overview, realizada pela Ace Ventures em parceria com o Sebrae Startups, aproximadamente 75% das startups entrevistadas foram criadas nos últimos cinco anos, enquanto apenas 10% surgiram antes de 2014. Os dados evidenciam que a taxa de mortalidade no Brasil continua elevada. A sobrevivência e a consolidação dessas empresas continuam sendo desafios centrais para os empreendedores.

Adotar a mentalidade camelo é um passo essencial para transformar boas ideias em empresas duradouras. E um dos caminhos apresentados por esse tipo de negócio é ter processos bem definidos. O empreendedor brasileiro, muitas vezes, é arredio a processos, o que atrasa e desorganiza o crescimento das empresas. Mas para que uma startup tenha sucesso, não basta apenas uma grande ideia.

No Brasil e no exterior, não faltam exemplos de negócios que seguiram o estilo camelo e se consolidaram. A Locaweb, plataforma de hospedagem de sites e serviços de internet, fundada em 1998, cresceu de forma prudente, mantendo solidez financeira mesmo em períodos de crise. A Hotmart, ferramenta digital de vendas e distribuição de produtos digitais, criada em 2011, também seguiu o caminho da autossuficiência antes de buscar grandes aportes, o que lhe garantiu estabilidade para se expandir globalmente. 

Ainda como exemplo, temos a Ebanx, plataforma de pagamentos fundada em 2012, que reforça como o modelo camelo também pode conduzir ao protagonismo global. Desde cedo a startup identificou as barreiras enfrentadas por consumidores latino-americanos em compras internacionais. Com investimentos em tecnologia e atendimento, expandiu sua atuação sem abrir mão da saúde financeira. Hoje, se consolidou no mercado como uma das principais formas de pagamentos digitais da América Latina.

Entre os casos internacionais, a plataforma de videoconferência Zoom e a plataforma de automação de fluxos de trabalho Zapier mostraram que é possível conquistar relevância mundial mantendo disciplina financeira, foco no produto e atenção à eficiência.

Vale destacar que o modelo camelo não se resume a uma escolha conservadora. Ele responde a um cenário em que crises econômicas, instabilidade política e mudanças no mercado de capitais expõem os riscos de estratégias baseadas apenas em crescimento acelerado e dependência de investidores. Startups que constroem sua base de maneira consistente estão mais preparadas para momentos de escassez, mantêm autonomia em decisões estratégicas e conquistam espaço de forma mais sustentável.

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