Falta de planejamento financeiro limita acesso a capital em startups brasileiras

Estudos mostram que apenas 17% das startups brasileiras estruturam suas finanças antes de buscar investimento, o que compromete o crescimento sustentável
Mikael Blomkvist
Mikael Blomkvist

Mesmo com o amadurecimento do ecossistema de inovação, o planejamento financeiro ainda é um dos principais desafios das startups brasileiras. Levantamento do Distrito e da Associação Brasileira de Startups (Abstartups) indica que apenas 17% dessas empresas realizam algum tipo de planejamento estruturado de caixa antes de buscar rodadas de investimento. A falta dessa etapa tem relação direta com a alta taxa de mortalidade do setor: cerca de 65% das startups encerram suas atividades antes de completar cinco anos, conforme dados do IBGE.

De acordo com Marilucia Silva Pertile, cofundadora da Start Growth e mentora de startups, a ausência de preparo financeiro é uma das causas mais recorrentes de insucesso nas captações. “Muitos empreendedores focam no produto e na tecnologia, mas deixam de planejar o básico: como sustentar a operação e gerar caixa previsível após o aporte. Sem isso, o capital captado se transforma em combustível para uma corrida sem direção”, afirma.

Gestão deficiente e uso ineficiente do capital

Relatório da CB Insights, que analisou mais de 110 startups que falharam globalmente, mostra que 38% delas encerraram as atividades por falta de capital ou má gestão financeira — a segunda principal causa de falência, atrás apenas da ausência de demanda de mercado.

Para Pertile, o cenário se repete no Brasil, onde muitas startups ainda não têm processos internos para controlar custos, definir o runway (tempo de sobrevivência do caixa) e mensurar indicadores como CAC e LTV. “O empreendedor capta, mas não define gatilhos de crescimento. Gasta com contratações, ferramentas ou marketing sem validação. Quando percebe, o caixa acabou e o negócio ainda não provou tração”, observa.

A mentora ressalta que o erro mais comum é confundir capital de risco com fôlego ilimitado. “O dinheiro do investidor deve servir para testar e acelerar hipóteses que já deram certo, não para cobrir a falta de gestão. Planejar o uso dos recursos é parte essencial da maturidade empreendedora.”

O impacto da falta de controle financeiro

Estudo da Endeavor e da Ernst & Young (EY) aponta que apenas 23% das startups brasileiras possuem controles financeiros mensais estruturados. O número é ainda menor entre empresas em fase inicial, em que o controle de caixa é feito de maneira informal ou reativa.

Segundo o Distrito, 73% dos empreendedores afirmam não saber com precisão por quanto tempo suas empresas sobreviveriam sem novo aporte. Essa incerteza compromete a previsibilidade e reduz a confiança dos investidores, que buscam clareza sobre o retorno do capital aplicado.

Perspectivas e mudança de mentalidade

Para Marilucia Pertile, a mudança necessária é cultural. “O mercado está mais exigente. Investidores querem ver governança, previsibilidade e clareza sobre o destino de cada real. Até 2026, as startups que não tratarem suas finanças com o mesmo rigor que tratam o produto terão dificuldade de acessar capital”, diz.

A especialista defende que o planejamento financeiro seja incorporado desde o início das operações, antes mesmo da busca por rodadas de investimento. “A startup precisa chegar à mesa do investidor com números claros sobre custo de aquisição, margem bruta, projeção de receita e tempo de runway. É isso que dá confiança e diferencia uma boa ideia de um bom negócio”, conclui.

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