Ibovespa amplia perdas, dólar avança e tensão política volta a pressionar o mercado

Risco fiscal doméstico e aversão global a tecnologia derrubam ações e elevam juros futuros
Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

O Ibovespa voltou a registrar uma queda ampla nesta quarta-feira, aprofundando o movimento negativo iniciado na véspera. O principal índice da B3 recuou 0,79%, aos 157.327,26 pontos, uma perda de 1.250,26 pontos, após já ter cedido 2,42% no pregão anterior. O dia foi marcado por aumento da aversão ao risco, refletida também no mercado de câmbio e de juros.

O dólar comercial voltou a subir com força e avançou 1,09%, cotado a R$ 5,522. Os juros futuros acompanharam o movimento de estresse e encerraram a sessão em alta por toda a curva, em resposta ao aumento das incertezas fiscais e políticas no ambiente doméstico, além do cenário externo mais adverso.

Fator político volta ao radar e fiscal segue como ponto de atrito

No campo político, a atenção dos investidores se deslocou novamente para o chamado “fator Flávio”. O senador Flávio Bolsonaro apareceu como o nome mais competitivo da direita em pesquisa recente da Quaest, superando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que vinha sendo visto com maior simpatia pelo mercado. Ainda assim, o levantamento indica que Flávio não teria força suficiente, neste momento, para derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A leitura reforça a percepção de que o ambiente político segue carregado e pouco previsível, especialmente em um contexto em que a relação entre o mercado e o governo federal permanece tensa, sobretudo em torno do tema fiscal. Na véspera, o Congresso aprovou um projeto que prevê corte de incentivos e aumento da tributação sobre apostas eletrônicas, mas a medida não foi suficiente para melhorar o humor dos agentes financeiros, que continuam demonstrando desconforto com a trajetória das contas públicas.

Wall Street pesa com aversão a tecnologia e frustração no setor de IA

No exterior, o cenário foi ainda mais desfavorável. Wall Street encerrou o dia em queda, com destaque negativo para as ações de tecnologia. A Oracle foi um dos principais focos de pressão, após reportagem do Financial Times indicar que fracassaram os planos da Blue Owl Capital para financiar um data center de US$ 10 bilhões da empresa de infraestrutura em nuvem no Estado de Michigan.

Segundo fontes ouvidas pelo jornal, investidores demonstraram preocupação com o elevado nível de endividamento e com o ritmo de gastos da Oracle, o que acendeu alertas sobre a sustentabilidade de alguns projetos ligados à expansão da inteligência artificial. O episódio reforçou a rotação para ativos mais defensivos e contaminou o sentimento global.

Vale e Petrobras limitam perdas, mas bancos pesam sobre o índice

No mercado doméstico, a queda do Ibovespa só não foi mais intensa graças ao desempenho positivo de algumas blue chips. A Vale (VALE3) subiu 1,27% e ajudou a conter as perdas do índice, mesmo em um ambiente de maior cautela global. A Petrobras (PETR4) também avançou, com alta de 1,11%, beneficiada pela elevação dos preços internacionais do petróleo em meio às tensões geopolíticas.

As petroleiras juniores acompanharam o movimento, com a PRIO (PRIO3) registrando leve ganho de 0,05%.

Ainda fora do Ibovespa, a Azul (AZUL4) conseguiu interromper a sequência de fortes quedas e terminou o dia estável, após os acionistas aprovarem mudanças no estatuto social que viabilizam o plano de reestruturação da companhia.

Bancos e varejo aprofundam movimento defensivo

Apesar do suporte vindo de commodities, o Ibovespa não resistiu ao peso dos setores mais sensíveis ao risco doméstico. Os grandes bancos lideraram as perdas, com Banco do Brasil (BBAS3) em queda de 0,74%, Bradesco (BBDC4) recuando 0,82%, Itaú Unibanco (ITUB4) perdendo 0,89% e Santander (SANB11) cedendo 0,60%. A B3 (B3SA3) voltou a ser destaque negativo, ao despencar 3,43%, refletindo a deterioração do apetite por risco e o aumento da volatilidade.

O varejo também sofreu com o ambiente mais defensivo. Magazine Luiza (MGLU3) caiu 3,16% e Lojas Renner (LREN3) recuou 3,59%, em um dia de retirada de posições mais expostas ao consumo e ao ciclo doméstico.

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