O ano de 2026 deve representar um ponto de inflexão no setor de tecnologia, com a consolidação da inteligência artificial em aplicações práticas e operacionais. Após um período de crescimento acelerado da IA generativa, empresas e governos entram em uma fase de maturidade, caracterizada pela adoção de agentes autônomos, robôs humanoides e novas arquiteturas de processamento de dados.
De acordo com a consultoria Gartner, os gastos globais com inteligência artificial devem ultrapassar US$ 2 trilhões em 2026, o equivalente a cerca de R$ 16,1 trilhões. Esse movimento indica a passagem de iniciativas pontuais para implementações em larga escala, com impactos diretos em cadeias produtivas, serviços e na relação entre empresas e consumidores.
Segundo o professor de MBA da Fundação Getúlio Vargas (FGV), palestrante e autor do livro “Organizações Cognitivas: Alavancando o Poder da IA Generativa e dos Agentes Inteligentes”, Kenneth Corrêa, a principal mudança está na evolução dos sistemas de apoio para estruturas autônomas. “A grande virada de 2026 será a consolidação das Redes de Agentes Inteligentes. Se até agora vivemos a era dos ‘Copilotos’, que nos auxiliavam a criar e analisar, 2026 marca a transição para a era da autonomia operacional, onde a IA não apenas sugere, mas executa. Estamos falando de sistemas capazes de negociar orçamentos, otimizar cadeias de produção e realizar pedidos de reposição de estoque sem intervenção humana direta, transformando organizações digitais em verdadeiras Organizações Cognitivas”, afirma.
Brasil amplia uso, mas enfrenta desafios de escala
No cenário internacional, o Brasil aparece como um dos principais usuários de ferramentas de IA generativa. Um estudo da Semrush aponta o país como o terceiro maior usuário do ChatGPT no mundo. Ainda assim, conforme avalia Corrêa, a adoção corporativa ocorre de forma desigual. “Temos casos excelentes, mas isolados. As empresas precisam transformar a IA de ‘ferramenta’ em ‘processo’, com escala e consistência”, diz.
Robôs humanoides avançam para aplicações industriais
Paralelamente à autonomia digital, a robótica humanoide começa a ganhar espaço fora dos laboratórios. Modelos como X1 NEO, Figure 3 e o R1, da chinesa Unitree, indicam o avanço da tecnologia para ambientes produtivos. A NVIDIA e a Foxconn, por exemplo, articulam a implantação de robôs humanoides em uma nova planta em Houston, nos Estados Unidos, com início das operações previsto para o primeiro trimestre de 2026.
Para Corrêa, esse movimento representa a materialização da chamada IA Física. “Veremos a IA saindo das telas e ganhando ‘corpo’ através da IA Física (Embodied AI) e dos Robôs Humanoides. Isso permite a automação de tarefas físicas repetitivas em fábricas e depósitos, com robôs capazes de executar atividades complexas que antes exigiam destreza humana, acelerando a produção com um consumo de energia drasticamente menor”, explica.
A Goldman Sachs Research estima que o mercado global de robôs humanoides possa atingir US$ 38 bilhões até 2035, com aceleração do crescimento já a partir de 2026, especialmente nos setores de serviços, varejo e entretenimento.
Pesquisa científica passa a ser orquestrada por agentes autônomos
Na área científica, agentes autônomos começam a integrar fluxos completos de pesquisa, desde a análise de dados até a formulação de hipóteses. Segundo Corrêa, iniciativas como a DeepMind, do Google, a missão Genesis, do governo dos Estados Unidos, e o IBM Watson for Science já demonstram esse avanço.
“A DeepMind do Google, a missão Genesis do Governo Americano e o IBM Watson for Science são exemplos claros de como agentes de IA estão transformando a pesquisa científica. Esses sistemas conseguem analisar milhares de estudos, propor hipóteses e até conduzir experimentos virtuais, comprimindo em semanas processos que antes levavam anos”, destaca.
Robotáxis avançam para operação comercial
O transporte autônomo também deve registrar avanços relevantes em 2026. A expectativa é que robotáxis passem a operar comercialmente em oito a dez grandes cidades ao redor do mundo. Com custo operacional estimado em US$ 0,30 por milha, o modelo tende a pressionar o setor de mobilidade e logística.
“Experimentei pessoalmente o Robotaxi da Tesla e o Waymo na Califórnia no meio do ano, e o Robotaxi da Didi em Shenzhen durante a Canton Fair. A tecnologia já está acessível ao consumidor e funciona de forma surpreendentemente eficiente. A autonomia deixa de ocupar um lugar de tendência futura e passa a integrar imediatamente as estratégias empresariais. Este movimento exige que as organizações revisem seus modelos operacionais para acompanhar a nova dinâmica tecnológica”, relata Corrêa.
Setores com maior impacto esperado em 2026
Segundo o professor da FGV, alguns segmentos devem sentir de forma mais imediata os efeitos da evolução da inteligência artificial. Na indústria, a combinação entre robôs humanoides e manutenção preditiva tende a reduzir gargalos e paradas não planejadas. Já áreas como auditoria, contabilidade e consultoria jurídica passam a adotar agentes capazes de analisar grandes volumes de documentos simultaneamente.
Nos setores farmacêutico e de biotecnologia, a gestão automatizada da pesquisa científica deve reduzir prazos de descoberta de novos medicamentos. Na saúde, as Interfaces Cérebro-Computador avançam para validação clínica e comercial, enquanto a sustentabilidade ganha impulso com a computação neuromórfica, que permite processar IA com consumo energético significativamente menor.
Infraestrutura e Edge AI ganham relevância
Com o avanço da autonomia, a infraestrutura tecnológica também passa por mudanças. A Edge AI, ou processamento de dados na borda, tende a se tornar uma necessidade arquitetônica. Nesse modelo, os dados são processados no local onde são gerados, reduzindo latência e riscos à privacidade.
“Com a Edge AI, informações sensíveis de saúde ou segredos industriais não precisam sair da organização. Isso resolve o dilema da privacidade na fonte, permitindo o uso de IA avançada sem a exposição de dados críticos a terceiros”, afirma Corrêa.
Relação entre empresas e consumidores se transforma
Outro ponto de mudança está na interação entre consumidores e empresas. Conforme avalia o especialista, o modelo baseado em busca tende a dar lugar à delegação para agentes pessoais de IA, que negociam diretamente com sistemas das empresas.
“O consumidor vem gastando cada vez menos tempo pesquisando em sites e passa a ter seus próprios Agentes Pessoais de IA, que negocia diretamente com os agentes das empresas para encontrar a melhor oferta ou resolver problemas de suporte. Isso cria um cenário ‘Bot-to-Bot’, indicando que a interação técnica com os robôs dos clientes tende a se tornar parte do funcionamento regular do mercado, o que reforça a necessidade de adaptação por parte das empresas”, explica.
Esse movimento é ampliado pela evolução dos óculos inteligentes, como os Smart Glasses 2.0, que passam a integrar recursos de navegação, comunicação e informação contextual em ambientes físicos, incluindo o varejo.
Brasil e os desafios da próxima fase
Para Corrêa, o Brasil possui vantagens na camada de aplicação das novas tecnologias. “Precisamos focar onde somos fortes: na camada de aplicação. Não teremos escala para competir no desenvolvimento de modelos de linguagem de grande porte no estado da arte, mas somos extremamente ágeis em implementar tecnologias na prática”, afirma.
Ele destaca que a adoção precoce de agentes inteligentes pode gerar ganhos de eficiência e competitividade. “Somos o terceiro país que mais usa o ChatGPT. Essa voracidade por inovação precisa ser aproveitada pelas empresas, que devem adotar agentes inteligentes agora para resolver problemas reais de eficiência e competitividade”, diz.
Na avaliação do especialista, o principal risco está na inação. “O risco fatal é a negação, ou seja, tentar operar uma empresa em 2026 como se ainda estivéssemos em 2019”, afirma. Segundo ele, a difusão de redes de agentes e da IA generativa já altera padrões de produtividade e competitividade.
“Mais do que uma tendência, a autonomia inaugura uma reconfiguração profunda da economia, do trabalho e das relações sociais, abrindo uma década em que a capacidade de adaptação, de revisão contínua de processos e de uso inteligente dos dados será determinante para a manutenção da relevância no mercado”, conclui Kenneth Corrêa.