Golpes de Black Friday: como o varejo está perigando com baixa maturidade de segurança

Karola G
Karola G

A Black Friday no Brasil é vista principalmente como um período de altas vendas, aumento no tráfego de sites e metas de faturamento atingidas. No entanto, o que muitas empresas não percebem é o lado oculto desse evento: o risco cibernético. O Panorama do Risco Cibernético no Brasil, que analisou 117 projetos de segurança em mais de dez setores, mostra um cenário preocupante no varejo: uma maturidade cibernética média de apenas 1,3 em uma escala de 0 a 5, e um apetite de risco de 3,4, o que indica que as empresas desejam estar mais preparadas do que realmente estão. Isso significa que o risco está sendo assumido sem a devida estrutura para enfrentá-lo.

Antes mesmo de a Black Friday começar, as simulações de ataques cibernéticos já revelam números alarmantes. O impacto potencial é extremamente alto, com uma pontuação de 9,5 em 10, e a probabilidade de incidentes é igualmente elevada, com índice superior a 8 em 10 para os próximos anos. Se nada mudar, a questão não é “se” algo vai acontecer, mas “quando” e com que intensidade.

A Black Friday acaba se tornando um teste involuntário de resistência para a segurança digital das empresas. O que os cibercriminosos buscam não é apenas realizar ataques simples de phishing, mas explorar um ecossistema complexo de fraudes. Um exemplo disso é o malvertising, onde criminosos sequestram anúncios em plataformas como Google e Meta, redirecionando consumidores para sites falsos, criando lojas clonadas ou oferecendo descontos inexistentes. Outro ataque crescente é o uso de deepfakes e influenciadores falsos. Com a tecnologia atual, é possível criar vídeos realistas de pessoas famosas promovendo cupons e ofertas falsas, o que torna ainda mais difícil para os consumidores distinguirem entre o legítimo e o fraudulento.

Além disso, o smishing (fraudes via SMS) e o vishing (fraudes via ligações telefônicas) continuam a ser uma grande ameaça. Os criminosos utilizam números falsificados e mensagens bem formuladas para enganar as vítimas, como pedidos para confirmar compras ou alertas sobre pacotes retidos, fazendo com que os ataques pareçam mais profissionais do que o atendimento de muitas empresas. Outra prática comum é a fraude em gateways de pagamento, sistemas de cashback e cupons, onde as falhas de autenticação e validação são exploradas, e as credenciais vazadas são usadas para consumir benefícios indevidamente.

No pior cenário, o ataque pode se expandir para os canais oficiais das empresas. Hackers podem sequestrar perfis de redes sociais durante a Black Friday, direcionando clientes para lojas falsas. Ataques à infraestrutura de TI e à nuvem podem ocorrer de forma silenciosa, esperando o momento certo para causar grandes danos.

Mesmo que um botão mágico de segurança não exista, há passos práticos que as empresas podem tomar para se preparar. O primeiro passo é simular ataques reais, com Red Teams e testes que incluam engenharia social e comprometimento de canais oficiais. Apenas dessa forma é possível identificar vulnerabilidades ocultas e entender o comportamento dos cibercriminosos em um ambiente real.

Outro movimento essencial é testar a capacidade de carga dos sistemas e garantir que tanto o tráfego legítimo quanto o malicioso possam ser gerenciados. A validação de APIs críticas de checkout, pagamento e fidelidade é fundamental para evitar que clientes fiquem impossibilitados de concluir suas compras.

Além disso, as empresas precisam monitorar ativamente fraudes digitais, como domínios falsos e anúncios maliciosos, e ter uma estratégia de resposta rápida para eliminar esses ataques o mais rápido possível. A gestão de acessos também deve ser um foco, com o uso obrigatório de autenticação multifatorial (MFA) para sistemas críticos, além de revisar contas compartilhadas e acessos privilegiados.

A preparação não deve parar por aí. Todos os colaboradores devem saber exatamente o que fazer em caso de incidente, com papéis bem definidos para declarar incidentes, comunicar-se com clientes e reguladores e tomar decisões rápidas para minimizar os danos. Quando o incidente ocorre, é crucial agir rapidamente: centralizando a visão do tráfego em tempo real, priorizando as ações de maior impacto e comunicando com transparência antes que os boatos tomem conta.

A Black Friday não é um problema de segurança em si, mas um acelerador. Ela acelera as transações, as oportunidades e, infelizmente, as fraudes. O panorama atual mostra que o varejo brasileiro está entrando nessa corrida com maturidade baixa e risco alto. Se essa equação não for tratada como prioridade estratégica, o ciclo se repetirá: campanhas brilhantes, vendas fortes e, no final, um incidente que consome em poucas horas tudo o que foi conquistado em meses.

A boa notícia é que o caminho para a resiliência é conhecido. Entender o risco real, alinhar apetite e investimento, testar de forma prática e construir uma resiliência contínua são passos essenciais. A Black Friday pode passar, mas as vulnerabilidades ficam. A questão é: a próxima grande data encontrará sua empresa mais preparada ou no mesmo lugar?

O conteúdo deste texto é de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não representa, necessariamente, a opinião do TV7.

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