Recentemente, o Eric Schmidt, um dos fundadores do Google, fez uma declaração sobre como a China está adiantada ou em vantagem em relação aos Estados Unidos na corrida da AI, devido ao modo de trabalho que eles têm. Ele fez uma alusão ao modelo de trabalho chinês, chamado “996”, que consiste em uma jornada de trabalho que começa às 9 horas da manhã até as 9 horas da noite, seis dias por semana. Isso toca em tensões profundas entre produtividade, bem-estar e modelos de desenvolvimento nacional.
Mas o destaque da fala do executivo foi na crença de que o trabalho presencial faz com que as pessoas se desenvolvam melhor e mais rápido, e, às vezes, aprendem até coisas que elas não aprenderiam se elas estivessem na casa delas ou demorariam muito mais para aprender.
Com um regime de trabalho extremo, não tenho dúvidas de que esse impulso pode ser acelerado ainda mais. No curto e médio prazo, isso dá uma vantagem competitiva imensa para o país, tanto em escala de execução quanto em domínio de mercados estratégicos.
Mas o que me chama a atenção é a lógica de longo prazo: enquanto o Ocidente coloca o indivíduo e a qualidade de vida no centro, a China pensa em termos de gerações e prosperidade nacional. Lá, o sacrifício do agora é visto como investimento no futuro, mesmo que os frutos sejam colhidos por uma geração seguinte. É um paradigma difícil de compreender do lado de cá, mas inegavelmente estratégico.
Dito isso, é importante fazer um contraponto: mesmo que o resultado econômico seja expressivo, há limites biológicos e psicológicos para os seres humanos. O custo social e humano, saúde, famílias, bem-estar, podem gerar instabilidade. Não existe prosperidade sustentável se a base que sustenta esse crescimento entra em colapso.
O “big picture”, portanto, é paradoxal: de um lado, um modelo que pode acelerar ainda mais a ascensão da China como potência; de outro, um risco real de desgaste humano e social que pode minar a própria estabilidade desse crescimento.