O avanço acelerado da Inteligência Artificial no varejo pode gerar impactos relevantes em até 18 meses caso o setor não avance em governança, segurança e arquitetura tecnológica. A avaliação é de Marcos Oliveira Pinto, Gerente Global de Engenharia de Software da Jitterbit, que acompanha operações de e-commerce no Brasil e na América Latina.
Segundo ele, empresas do setor adotaram soluções baseadas em IA em ritmo superior à capacidade de estruturar controles adequados. De acordo com o especialista, o cenário atual é marcado por entusiasmo, mas ainda distante de um nível considerado maduro para sustentar a transformação digital em curso.
“Estamos vendo muitas empresas tentando sair na frente, mas deixando para trás peças essenciais”, afirmou. Ainda segundo Marcos, mesmo organizações com estruturas enterprise não estão totalmente preparadas, enquanto a maior parte do varejo segue a lógica de implementar primeiro e organizar depois. “Eu diria que algo entre 12 e 18 meses. Acredito que, com certeza, em 12 meses já vamos começar a enfrentar um problema com a gestão e com a segurança disso”, declarou.
O alerta está relacionado, principalmente, à proliferação de agentes de IA criados sem padronização, documentação ou supervisão técnica. Com a popularização dessas ferramentas fora dos departamentos de tecnologia, áreas de negócio passaram a desenvolver automações de forma independente, o que dificulta a rastreabilidade e o controle sobre dados acessados e decisões tomadas.
De acordo com o especialista, esse movimento remete ao início da adoção de plataformas de integração como serviço, quando ambientes desorganizados se tornaram caros e complexos de manter. No caso da IA, o risco é ampliado pela autonomia dos agentes e pela velocidade de evolução tecnológica, que pode deixar sistemas operando com técnicas já ultrapassadas.
Além disso, cresce a preocupação com ameaças de segurança, como ataques de prompt injection, nos quais comandos maliciosos são enviados para induzir comportamentos não intencionais em sistemas automatizados, afetando operações críticas do varejo.
Apesar dos riscos, Marcos destaca que o potencial da IA é significativo. Entre os exemplos citados estão situações de instabilidade em checkouts de e-commerce, em que superagentes poderiam autorizar compras com base no histórico do cliente e processar dados posteriormente, evitando perda de vendas. Há também aplicações em continuidade operacional, pricing dinâmico, monitoramento de concorrência e atendimento ao consumidor com análise de sentimento.
Para lidar com esses desafios, a Jitterbit aposta em arquiteturas de superagentes capazes de orquestrar agentes especialistas de áreas como estoque, logística, financeiro, marketing e atendimento ao cliente em um único ambiente. Segundo Marcos, o usuário final recebe respostas integradas, sem perceber qual agente está em operação. Ele afirma que a empresa mantém equipes focadas em testes e atualização constante das tecnologias de IA.
Ainda assim, o especialista ressalta que a tecnologia, por si só, não resolve a falta de maturidade estratégica. Segundo ele, muitas empresas não definiram claramente quais problemas pretendem solucionar com IA, o que tem impulsionado projetos de quick wins, voltados a resolver demandas específicas e gerar valor rápido.
Nesse contexto, surge também a necessidade de novos papéis profissionais, como o validador de IA, responsável por revisar decisões críticas dos agentes, evitar falhas e garantir conformidade com políticas internas.
Para Marcos, a adoção da IA deixou de ser opcional e se tornou uma exigência competitiva. No entanto, sem governança e planejamento, o avanço pode se transformar em um passivo operacional. De acordo com sua avaliação, o varejo tem até 18 meses para estruturar essa base antes que os efeitos da falta de controle se tornem mais evidentes e custosos.