Juros elevados reduzem acesso ao crédito e impulsionam busca por modelos alternativos na indústria

Com maior seletividade bancária, indústrias recorrem a soluções próprias de crédito para garantir capital de giro e planejamento em 2026
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O ambiente financeiro de 2025 tem ampliado os obstáculos para indústrias brasileiras, especialmente as de médio porte, que enfrentam dificuldade para acessar crédito e manter operações. Embora a inflação tenha desacelerado e encerrado o ano em 4,45%, a taxa Selic permanece em 15% ao ano, o maior nível desde 2006. Esse cenário, segundo especialistas, eleva o custo do capital e restringe a oferta de financiamentos, o que pressiona diretamente a produção e limita investimentos.

A redução do ritmo industrial confirma esse movimento. Dados do IBGE mostram que a produção registrou queda de 0,4% entre agosto e setembro e recuo de 0,2% em julho de 2025, após encerrar 2024 com avanço de 3,1%. Setores que tiveram desempenho positivo no ano anterior, como veículos automotores, com alta de 12,5%, e equipamentos eletrônicos, com crescimento de 14,7%, passaram a enfrentar maior dificuldade para financiar estoques e modernização de plantas.

De acordo com Thiago Eik, CEO da Bankme, a combinação entre juros elevados e avaliação conservadora dos bancos tem ampliado o impacto sobre empresas industriais. “O custo do dinheiro subiu e os bancos se retraíram. A indústria de médio porte, que já costuma enfrentar mais barreiras por ser vista como um segmento de maior risco, acabou ficando ainda mais pressionada. Hoje, vemos empresas com boa capacidade produtiva e carteira ativa de clientes sendo impedidas de crescer por falta de crédito acessível”, afirma. Ele explica que a assimetria de informações continua sendo um entrave, já que muitas empresas têm dificuldade para comprovar fluxo de caixa contínuo, o que leva à negativa de crédito mesmo quando apresentam operações saudáveis.

Enquanto o crédito se torna mais difícil, investimentos públicos e privados crescem em ritmo acelerado. O programa Nova Indústria Brasil completou um ano com R$ 3,4 trilhões mobilizados, sendo R$ 1,2 trilhão provenientes do setor público e R$ 2,2 trilhões do setor produtivo. Apenas o Plano Mais Produção aprovou R$ 384,4 bilhões em projetos entre 2023 e 2024. Esses números, conforme analistas, mostram o potencial de reindustrialização do país, mas também evidenciam a distância entre grandes grupos, que têm maior capacidade de captação, e empresas médias dependentes do sistema financeiro tradicional.

A expectativa para 2026 indica que a queda gradual da Selic poderá não ser suficiente para destravar o crédito. As projeções apontam para taxa entre 12% e 12,5% ao final do próximo ano, mas a tendência é que os bancos mantenham critérios rígidos, exigência de garantias e menor apetite ao risco. “Mesmo com uma possível queda da taxa básica, o crédito não vai se destravar de um dia para o outro. O desafio será ainda maior para quem não tiver dados organizados, fluxo de caixa previsível e garantias. Por isso, veremos uma procura crescente por plataformas e fintechs que conseguem analisar risco com mais precisão e oferecer condições mais justas. O crédito privado deve ganhar protagonismo”, projeta Eik.

Nesse contexto, o planejamento financeiro torna-se fundamental para empresas que buscam estabilidade. A organização de informações operacionais, o fortalecimento do controle de caixa e a parceria com instituições que entendam o ciclo produtivo devem ser diferenciais ao longo de 2026. “O empresário que se preparar agora: organizando dados, melhorando seus controles e buscando parceiros financeiros que entendam seu modelo de negócio, terá vantagem no próximo ciclo. O crédito continuará difícil, mas não impossível. A diferença estará em quem consegue provar sua capacidade de execução”, conclui o CEO.

Com o crédito tradicional mais restrito, alternativas descentralizadas começam a ganhar espaço. Modelos como mini bancos corporativos permitem que empresas operem seu próprio ambiente de crédito com autonomia e regras customizadas. Na prática, essas estruturas oferecem acesso a capital de giro, antecipação de recebíveis e linhas estruturadas conforme o fluxo de caixa real, o que reduz custos e amplia previsibilidade financeira. Segundo Eik, soluções desse tipo tendem a ganhar relevância em 2026, à medida que indústrias buscam formas mais eficientes para financiar expansão e sustentar produção em um cenário de juros altos e crédito seletivo.

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