O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 15% ao ano, em reunião realizada nesta quarta-feira (28), em Brasília. A decisão já era amplamente esperada pelo mercado financeiro e marca a quinta reunião consecutiva sem alteração nos juros básicos da economia brasileira.
Com a manutenção, a Selic permanece no maior patamar desde julho de 2006, quando estava em 15,25% ao ano. Segundo o Banco Central, a decisão reflete a necessidade de preservar o processo de desinflação e manter ancoradas as expectativas para a inflação nos próximos períodos.
Do ponto de vista do setor produtivo, a decisão reforça o ambiente de cautela. Segundo Thiago Aor, CFO da Cora, conta digital voltada para pequenas e médias empresas, “a manutenção da Selic reforça a postura de cautela do Banco Central em priorizar a ancoragem das expectativas de inflação antes de avançar em um novo ciclo de cortes”.
Ainda de acordo com Aor, o impacto para as PMEs segue relevante, uma vez que o custo do crédito permanece elevado, o que encarece capital de giro e investimentos, além de adiar uma retomada mais consistente da atividade econômica.
Na avaliação do economista-chefe do Banco Bmg, Flávio Serrano, a decisão já estava precificada, mas houve sinalização relevante na comunicação do Copom. “O Copom decidiu manter a taxa básica de juros inalterada em 15,00% a.a., conforme amplamente esperado”, afirmou. Segundo ele, o comitê voltou a utilizar o chamado forward guidance ao indicar que, caso o cenário esperado se confirme, pode iniciar um processo de corte de juros na próxima reunião, marcada para março.
Serrano acrescentou que o Banco Central indicou cautela quanto ao ritmo e à magnitude do eventual ciclo de flexibilização monetária, que dependerá da evolução do cenário econômico nos próximos meses. A projeção do economista é de um possível corte de 0,50 ponto percentual na Selic na reunião de março.
A decisão do Copom ocorreu na chamada Super Quarta, quando também houve definição de política monetária nos Estados Unidos. O Federal Reserve manteve os juros na faixa entre 3,5% e 3,75% ao ano, sinalizando confiança na estabilidade do mercado de trabalho e na atividade econômica. Segundo Dan Siluk, diretor da Janus Henderson Investors, o Fed reconheceu que a inflação segue “um pouco elevada”, mas adotou um tom de maior paciência, dependente dos dados econômicos.
Na comparação internacional, analistas destacam que o Brasil ainda opera com juros elevados em relação às economias centrais. Para Paulo Cunha, CEO da iHUB Investimentos, o mercado já começa a precificar um possível corte no Brasil. “A próxima reunião, marcada para março, já é bastante indicada para um corte, possivelmente de 0,50%. O Brasil está em atraso em relação aos Estados Unidos, por exemplo, que passaram por cortes recentemente”, comentou.
Segundo Cunha, esse cenário tem influenciado o comportamento dos investidores. “A Bolsa brasileira vem batendo recordes, beneficiada principalmente pelo fluxo de capital estrangeiro”, afirmou. De acordo com ele, a diferença de juros entre Brasil e Estados Unidos tende a impactar o câmbio e os mercados de renda variável e renda fixa ao longo dos próximos meses.