A falta de organização financeira atinge 47% dos adolescentes brasileiros, segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil). A ausência de planejamento é apontada como fator de risco para endividamento precoce e também para impactos na saúde mental, como estresse e baixa autoestima.
Entre os motivos relatados pelos jovens, 19% afirmaram não saber como fazer o controle de gastos, 18% apontaram preguiça e outros 18% disseram não ter hábito ou disciplina. Além disso, 16% declararam não possuir renda suficiente para realizar a gestão financeira. O estudo ainda mostrou que 26% utilizam apenas um bloquinho de papel para acompanhar despesas.
De acordo com o psicólogo Pedro Rujano, dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, a forma como os adolescentes lidam com o dinheiro está relacionada a aspectos emocionais e sociais. “Quando o jovem desenvolve autoconhecimento, controle emocional e hábitos de organização, consegue tomar decisões mais conscientes e com sentido, reduz o estresse ligado às finanças e constrói bases mais sólidas para a vida adulta”, afirmou.
A conexão entre finanças e bem-estar foi reforçada em outra pesquisa realizada pela fintech Onze em parceria com a Icatu. O levantamento mostrou que 49% dos brasileiros apontam o dinheiro como principal fonte de preocupação, índice superior ao da saúde (19%), família (15%), trabalho (7%), violência (7%) e política (3%).
Para aproximar os jovens do tema, iniciativas de educação financeira têm buscado novas estratégias. A startup Investeendo, por exemplo, utiliza gamificação em sala de aula, com jogos de tabuleiro, aplicativos e totens digitais. A proposta é tornar o aprendizado mais atrativo, permitindo que estudantes acumulem moedas fictícias que podem ser trocadas por benefícios, como prazos estendidos para entrega de trabalhos ou itens físicos.
Segundo Sam Adam Hoffmann, CEO da empresa, o objetivo é desenvolver hábitos desde cedo. “Quando o jovem aprende desde cedo a organizar seus gastos e a compreender a importância de escolhas conscientes, ele evita problemas financeiros no futuro e reduz significativamente os riscos emocionais que acompanham a falta de planejamento”, declarou.
A Investeendo já alcançou mais de seis mil jovens em três estados brasileiros, com atuação em 40 instituições de ensino. A meta é atingir 100 mil adolescentes até 2027, especialmente em comunidades periféricas.
Especialistas defendem que a educação financeira deve começar ainda na infância. De acordo com Vanessa Cristiane Motta de Matos, sócia-fundadora da Investeendo, crianças a partir dos três anos já podem compreender conceitos básicos de escolha e, na adolescência, devem ser incentivadas a participar do planejamento familiar e aprender noções de crédito, juros e investimentos.
Na fase em que ingressam no mercado de trabalho, recomenda-se que os adolescentes organizem o primeiro salário com disciplina. Segundo Vanessa, uma estratégia prática é separar 15% da renda para investimentos, 15% para poupança voltada a objetivos maiores e utilizar o restante conforme necessidades e desejos pessoais.