O Brasil registra em 2025 um dos patamares mais elevados de endividamento empresarial desde o início das medições oficiais. De acordo com dados da Serasa Experian e do Mapa de Empresas do governo federal, mais de 8 milhões de companhias estão negativadas, entre elas 7,6 milhões de micro e pequenas, responsáveis por parte significativa dos 102,4 milhões de vínculos formais do país.
O passivo acumulado desse grupo ultrapassa R$130,5 bilhões, o que indica que uma em cada três empresas formais opera com fluxo de caixa comprometido. As informações dialogam com levantamentos já citados em análises sobre insolvência empresarial, que tratam do avanço de dívidas e do aumento da pressão sobre operações de menor porte.
Conforme especialistas, a deterioração financeira resulta da combinação entre queda de faturamento, juros altos, retração no crédito e ausência de gestão estruturada. Para Marcos Pelozato, advogado, contador e conselheiro com atuação em reestruturação empresarial, o agravamento ocorre porque sinais de colapso são frequentemente ignorados. “O empresário brasileiro costuma buscar ajuda somente quando a situação já fugiu do controle. Quando o caixa trava, o fornecedor fecha a torneira e a dívida explode, as alternativas ficam muito mais restritas”, afirma.
Segundo Pelozato, a reação tardia amplia o risco de encerramento das atividades, sobretudo entre micro e pequenas empresas, segmento mais afetado por oscilações de receita e crescimento rápido do passivo. Ele reforça que a tensão atual exige atenção imediata. “Se mais de 7,6 milhões de empresas estão em risco e você faz parte desse grupo, esperar não é uma opção. A omissão é uma escolha pelo fechamento”, diz.
A inadimplência em larga escala já produz reflexos estruturais. Com restrição maior ao crédito e avanço das dívidas vencidas, empresas de menor porte enfrentam dificuldades para honrar compromissos, renegociar com fornecedores e manter estoques essenciais. O cenário se aproxima de análises anteriores que mencionam 7,3 milhões de negócios com limitações para operar e passivos superiores a R$170 bilhões.
Para Pelozato, a fragilidade financeira também compromete a manutenção de empregos, devido à relevância das microempresas na geração de postos formais. “Quando uma microempresa fecha, não é só o dono que perde. São milhões de famílias que sentem o impacto, porque esse segmento sustenta boa parte dos postos de trabalho formais”, explica.
O especialista informa que, diante do avanço do passivo, há dois caminhos principais: adotar um processo estruturado de reordenação, como o Conselho de Crise, ou ingressar na Recuperação Judicial. Ambos dependem de diagnóstico detalhado e de ações rápidas. “A Recuperação Judicial não é uma confissão de fracasso. É uma ferramenta legal que protege empresas viáveis”, reforça.
Pelozato também considera que áreas de contabilidade e direito precisam atuar de forma preventiva, e não apenas em momentos críticos. “Falta conhecimento técnico entre empresários e até entre profissionais que deveriam orientar esses negócios. Sem essa preparação, muitas empresas acabam fechando sem sequer considerar alternativas legais de reorganização”, afirma.
Ele destaca que companhias com caixa travado precisam agir em poucas semanas, já que a postergação acentua o risco de ruptura. “A cada mês de atraso, a dívida cresce, o caixa diminui e as chances de recuperação despencam. Reorganizar o passivo, renegociar dívidas e comprovar a viabilidade econômica são etapas que precisam ser iniciadas imediatamente”, conclui.