O dólar tem se mantido forte durante o fechamento do governo dos Estados Unidos, contrariando a lógica tradicional do mercado, segundo análise de Matthew Ryan, head de estratégia de mercado da Ebury. A valorização da moeda norte-americana ocorre mesmo diante da paralisação federal, que em situações anteriores costumava pressionar o dólar para baixo.
De acordo com Ryan, o comportamento atual do mercado reflete o aumento da demanda por ativos de refúgio seguro em períodos de incerteza. O ouro, por exemplo, continuou sua trajetória de alta e atingiu novos recordes, enquanto os títulos do Tesouro dos EUA atraíram compradores. No câmbio, o iene japonês — normalmente um dos principais destinos de proteção — perdeu força devido à instabilidade política no Japão, o que fez o dólar emergir como o refúgio preferido dos investidores.
O cenário político na Europa também contribuiu para o fortalecimento do dólar. A crise na França levou o par EUR/USD a cair abaixo do nível de 1,16. Segundo Ryan, o presidente Emmanuel Macron pode nomear um novo primeiro-ministro ainda hoje (sexta-feira, 10), mas há pouca expectativa de que a mudança seja suficiente para romper a paralisia política. Com isso, os mercados continuam a atribuir um prêmio de risco aos ativos franceses, diante do aumento do déficit público do país.
A ausência de dados econômicos relevantes, já prevista antes da paralisação do governo americano, faz com que os mercados operem guiados por fluxos de refúgio seguro e pelas notícias políticas vindas de Paris. Ryan afirmou que o dólar tem se mostrado “surpreendentemente forte” desde o início do fechamento federal, um movimento oposto ao observado durante a última paralisação em 2018.
Apesar do desempenho recente, o estrategista considera improvável que o dólar mantenha a atual trajetória de valorização por muito tempo. Segundo ele, “parece não haver fim à vista para o impasse no Congresso”. As apostas de mercado indicam que o fechamento pode durar pouco menos de um mês, o que o colocaria entre os mais longos da história recente, semelhante ao ocorrido durante o primeiro mandato de Donald Trump.