Os brasileiros estão vivendo mais, mas ainda enfrentam dificuldades para planejar a própria segurança financeira no longo prazo. Dados divulgados recentemente mostram que a expectativa de vida no país alcançou 76,6 anos, o maior índice já registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ao mesmo tempo, o percentual de famílias endividadas chegou a 80,2% em fevereiro de 2026, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), atingindo o maior patamar da série histórica iniciada em 2010.
O cenário evidencia um contraste entre o aumento da longevidade da população e a preparação financeira para os anos futuros. Enquanto objetivos de curto prazo, como viagens, compras e projetos pessoais, costumam receber prioridade, decisões relacionadas à aposentadoria e à construção de patrimônio seguem sendo postergadas por grande parte dos brasileiros.
A dificuldade de planejamento também aparece nos dados sobre aposentadoria. Conforme a nona edição do estudo Raio X do Investidor Brasileiro, realizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha e divulgada em abril de 2026, apenas 16% das pessoas que ainda não se aposentaram afirmam guardar dinheiro com esse objetivo. Em contrapartida, 57% dizem que pretendem começar a poupar para a aposentadoria.
Para a administradora e especialista em planejamento financeiro e previdenciário Sabrina Herrschaft, o adiamento desse tipo de decisão está mais ligado à percepção do tema do que necessariamente ao nível de renda. “Planejar férias, trocar de carro ou organizar uma compra importante costuma parecer mais concreto e urgente. O futuro financeiro, por outro lado, ainda é tratado como algo distante. O problema é que a longevidade aumentou e esse futuro chega cada vez mais rápido”, afirma.
Segundo a especialista, a organização financeira não depende exclusivamente de altos salários ou de um patrimônio já consolidado. De acordo com ela, o processo começa a partir da definição de objetivos e da capacidade de organizar receitas e despesas. “O planejamento financeiro não começa quando existe um grande patrimônio ou uma renda elevada. Ele começa quando existe consciência sobre objetivos, previsibilidade e organização”, explica.
Além disso, as transformações no mercado de trabalho ampliaram a relevância do tema. O crescimento de contratos flexíveis, do trabalho autônomo e de modelos de renda diversificada reduziu a percepção de estabilidade associada aos empregos tradicionais, tornando mais necessária a construção individual de mecanismos de proteção financeira.
Nesse contexto, Sabrina destaca que o planejamento previdenciário deve ser compreendido de forma mais ampla. “Quando falamos de futuro financeiro, não estamos falando apenas de aposentadoria. Estamos falando de independência, tranquilidade e da possibilidade de tomar decisões com menos vulnerabilidade ao longo da vida”, ressalta.
Para a especialista, a educação financeira vem ganhando espaço nas discussões sobre qualidade de vida e autonomia pessoal. Ela avalia que a preparação para o futuro precisa acompanhar o aumento da expectativa de vida da população. “Viver mais é uma conquista, mas viver mais sem planejamento pode transformar longevidade em preocupação. O futuro financeiro não deveria ser um assunto para depois e sim uma construção feita ao longo da vida”, conclui.